Capítulo 01 - O pilar

Marcus sempre acreditou que o mundo funcionava segundo regras claras, fossem elas leis da física ou mesmo as pessoas, tudo poderia ser explicado de alguma forma.

Aos vinte e cinco anos, essa visão de mundo havia lhe rendido bons resultados.

Sul-americano, formado em Engenharia Elétrica, Marcus cresceu em uma família de classe média alta, sem grandes privações, mas também sem excessos. Nunca precisou lutar pela sobrevivência, em vez disso, dedicou-se a ser bom no que fazia, muito bom. Seu talento e disciplina chamaram atenção cedo, abrindo portas que ele jamais imaginou atravessar.

Uma dessas portas o levou aos Estados Unidos.

Por meio de um visto de trabalho, seguido de um processo longo, burocrático e cansativo, Marcus conquistou a cidadania americana e, pouco depois, recebeu uma proposta improvável: trabalhar para o Exército dos Estados Unidos em uma base militar isolada na Califórnia. Sua função envolvia supervisão, manutenção e projeto de sistemas elétricos, redes de distribuição e equipamentos sensíveis.

Marcus não era um combatente, nunca foi. Prestando esse tipo de serviço elétrico, dificilmente iria para um campo de batalha, afinal, não era um soldado.

Seu inglês era impecável, fruto de anos de estudo e intercâmbios durante a adolescência. Adaptou-se rapidamente à rotina da base, ao calor seco do deserto e à disciplina militar que permeava tudo.

A vida, de modo geral, era boa. Boa demais… Às vezes, Marcus se perguntava se merecia viver tão bem assim.

Marcus mantinha contato constante com os pais e com a irmã mais nova, Carolina. Mesmo sem necessidade, enviava dinheiro para casa, não para os pais, mas para sua irmã, com o objetivo de mimá-la. Nas férias, sempre voltava para visitá-los, tentando não pensar demais na distância crescente entre quem ele era agora e quem fora antes de atravessar fronteiras.

Marcus até mesmo encontrou o amor, algo que nunca pensou vivenciar durante a faculdade ou o ensino médio, mas encontrou. Kiara era uma soldado que atuava no reparo e manutenção de armas da base, além de cuidar de inventário e participar de treinamentos com armamentos diferenciados. Ela entendia muito sobre isso. Possuía 1,62 m de altura, longos cabelos negros que chegavam até a metade das costas, mas que, no expediente, ficavam presos em um rabo de cavalo, revelando sua bela jugular.

Marcus conheceu Kiara na base, compartilhando histórias e refeições. Logo perceberam que tinham muito em comum e decidiram começar um relacionamento. Relacionamentos entre militares da mesma patente não eram proibidos, mas também não eram incentivados. Marcus estava radiante, extremamente feliz, com certeza, o ponto mais feliz de sua vida, seu auge, seu ponto de virada.

Ele também fez um amigo muito próximo: Kyle, um médico combatente texano, barulhento, supersticioso e absolutamente leal. Kyle era extremamente alto, possuía 1,98 m de altura, loiro e incrivelmente musculoso. Não era um fisiculturista, mas tinha um belo físico.

A base em que estavam vivia uma certa “paz”. Como civil trabalhando em um ambiente militar, Marcus sabia que isso poderia mudar a qualquer momento, mas nada dava indícios disso havia anos.

Em uma terça-feira qualquer, no horário de almoço, Marcus, Kiara e Kyle estavam reunidos, jogando conversa fora. Falavam sobre a Área 51, local que, segundo rumores, liderava operações envolvendo vida extraterrestre, podendo até mesmo manter algum tipo de alienígena prisioneiro para estudos.

“Tô te falando, eu já vi com meus próprios olhos, eles existem! Numa plantação no Texas, eu vi o círculo que eles deixaram. Aquilo é coisa de louco, impossível ter sido feito por mãos humanas!” disse Kyle insistentemente, tentando convencer o casal de amigos a acreditar em extraterrestres.

Marcus riu.

“Eu nunca vi nada disso pessoalmente, mas já ouvi muitas histórias de parentes que viviam no interior. Não só sobre aliens, como também lobisomens, vampiros e outras criaturas sobrenaturais. No fim, é quase uma espécie de religião: você acredita se quiser, mas não consegue provar nada. Tudo se baseia na fé”

“Cara, você é muito lógico, um poço de ceticismo! Nem tudo na vida precisa fazer sentido. Nem tudo pode, ou deve, ser analisado com lógica.” disse Kyle, levemente irritado com a tranquilidade com que Marcus respondeu, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo e Kyle fosse burro.

Kiara observava os dois amigos discutindo amigavelmente enquanto permanecia em silêncio, apenas apreciando o diálogo. Era mais um dia comum: o céu estava limpo, com poucas nuvens. Os três estavam no horário de almoço, conversando antes de voltar ao serviço, quando algo os pegou de surpresa.

Foi Kiara quem percebeu primeiro.

“Vocês estão vendo isso?” disse, com a voz baixa, mas tensa.

Marcus seguiu a direção do olhar dela. No horizonte, além das cercas e das torres de vigilância, algo… errado começava a acontecer.

Um ponto verde.

Não era luz como a do sol, nem como a de um holofote. Era um verde profundo, quase doentio. O ponto cresceu, esticando-se para cima, formando um pilar de luz verde que ligava o chão ao céu, perfurando as nuvens.

“Os aliens! Falei pra vocês! Eles chegaram e vão nos levar embora!” disse Kyle, exasperado.

A primeira reação de Marcus e Kiara foi rir, mas isso durou apenas um instante, quando ouviram as sirenes tocarem em sinal de alerta. A base virou um caos controlado. Soldados corriam para suas estações de combate. Marcus, Kiara e Kyle saíram para o pátio externo. O calor do deserto parecia ter sumido, substituído por uma estática fria que fazia os pelos dos braços de Marcus se arrepiarem.

O pilar começou a se expandir.

O que antes tinha a largura de um carro agora tinha o tamanho de um prédio. E crescia em silêncio absoluto, engolindo a areia, os cactos, os alvos de treino.

A artilharia da base, posicionada para exercícios, abriu fogo. Marcus viu os canhões automáticos dispararem em direção à luz.

As explosões atingiram a parede de luz verde e… nada.

Sem fogo, sem destroços. Os projéteis simplesmente deixavam de existir no momento em que tocavam a luz. O pilar não respondia, não atacava, não se defendia, apenas continuava aumentando de tamanho, imponente, imparável, inescapável.

“Temos que sair daqui!” Kiara agarrou o braço de Marcus. “Agora!”

Eles correram. Mas a situação era impiedosa. O pilar não estava apenas crescendo, expandia-se em todas as direções, a uma velocidade que desafiava a lógica. O horizonte verde já ocupava metade do céu. O sol foi eclipsado pela luminescência esmeralda.

Marcus olhou para trás enquanto corria. Viu a torre de controle ser engolida. Não houve som de concreto quebrando, nem gritos de dor. A torre simplesmente foi varrida da realidade, substituída pelo verde.

“Não vai dar tempo.” A mente de Marcus calculou velocidade e distância em uma fração de segundo. O resultado era ruim. Seja o que fosse aquele pilar de luz verde, ele os alcançaria. Não havia chance de fuga.

A parede de luz alcançou os alojamentos. Alcançou o pátio.

“Kiara!!” Marcus gritou, estendendo a mão para ela.

Eles pararam.

Não havia para onde correr. A parede verde, agora uma muralha que tocava o infinito, estava a 10 metros… 5… 3… 2… 1…

Kiara segurou a mão dele com força, os olhos cheios de lágrimas, mas sem desviar o olhar. Kyle estava ao lado, paralisado, murmurando uma oração aprendida na infância, no Texas.

“Eu te amo” Marcus conseguiu dizer.

A luz os tocou.

Marcus esperou o pior, dor excruciante, calor intenso, mas não encontrou nada disso. O tempo e o espaço haviam cessado, parado de existir. Olhando ao redor, ele percebeu o silêncio. Ele não existia mais.



Morto.

Marcus estava morto. O pilar havia apagado sua existência e a de todos os demais de forma indolor. Olhando ao redor, percebeu inúmeras esferas de luz, cada uma do tamanho de uma bola de golfe. Olhando para si mesmo, percebeu que também era uma dessas esferas: sem corpo, apenas uma massa de energia.

Todas as esferas seguiam um fluxo, uma corrente que as arrastava para um lugar misterioso, como um rio infinito. Seguiam sem rumo, até que algo mudou novamente.

Os pensamentos de Marcus estavam nublados. Ele não parecia ter a mesma capacidade de raciocínio de quando estava vivo, mas ainda percebia tudo ao redor. Uma força invisível, antinatural, passou a puxar todas as esferas de luz para fora de seu trajeto natural.

Todas foram puxadas sem exceção. Entretanto, algumas colapsaram, deixando de existir. Marcus sentiu a força puxando-o, sentia dor. Tentou resistir com todas as forças, mas era impossível. Continuava sendo puxado, enquanto mais esferas de luz colapsavam ao redor.

No fim, cerca de vinte esferas de luz eram puxadas em direção a um corredor escuro.

Em contraste, vinte esferas de escuridão, roxas, densas e vazias, saíram desse corredor, como se fossem expulsas, seguindo o caminho inverso. Enquanto Marcus percebia que estava sendo puxado, as esferas de escuridão eram empurradas.

Ao chegar ao fim do corredor, Marcus viu uma luz. Ao atravessá-la, sentiu algo diferente.

Frio.

Essa foi a primeira sensação, um frio úmido e cortante.

Depois, o cheiro. Não era óleo nem pólvora, como estava acostumado. Era cheiro de palha velha, mofo e algo doce e enjoativo, como perfume barato.

Marcus tentou abrir os olhos. A luz feriu suas retinas. Tentou falar, perguntar onde estava, chamar por Kyle ou Kiara.

Mas o que saiu de sua garganta não foram palavras.

Foi um som agudo, estridente e patético.

“Uaaah!”

Ele parou, chocado. Tentou mover o braço. Um membro gordo, curto e descoordenado passou diante de sua visão turva, mãos minúsculas, dedos que mal obedeciam a seus comandos.

O pânico, puro e primitivo, tomou conta dele, ele não podia falar, não entendia o que estava acontecendo.

“Shhh… shhh, meu pequeno…” sussurrou uma voz feminina. Era melódica, suave, mas carregada de profunda exaustão. Marcus não entendeu uma única palavra, parecia outra língua.

Ele sentiu-se ser erguido, o mundo girou e se estabilizou, sua visão começou a focar lentamente.

Ele olhava para um rosto, uma mulher. Bonita, mas com uma beleza cansada, olheiras profundas sob olhos amarelos amendoados. A pele era pálida, quase translúcida.

Mas não foi isso que fez a mente de Marcus, o engenheiro elétrico cético que só acreditava na física e na ciência, travar.

Foi o cabelo dela.

Uma cascata de fios de um roxo vibrante, uma cor inexistente na genética humana natural. E, ao afastar uma mecha daquele cabelo roxo, ele viu.

A orelha.

Não era redonda. Era longa, fina, terminando em uma ponta elegante que se movia levemente enquanto ela falava.

Marcus olhou para as orelhas pontudas, para o cabelo roxo e depois para o teto de madeira podre do lugar onde estava.

"Por que uma e-girl estranha fazendo cosplay de elfo está me segurando? Não… o principal problema: por que eu caibo no colo dela?" pensou, perplexo.

Ele não acreditava no que estava acontecendo, mas aquela era sua realidade inegável. Aparentemente, ele era um bebê agora. E não só isso: a mulher que o segurava, provavelmente sua mãe, não era humana.

Se não fosse uma cosplayer muito estranha, com certeza era uma elfa.

Eu renasci? Em algum tipo de mundo estranho…?

Enquanto pensamentos assim passavam por sua mente, ele chorava, inconformado. Sua vida, que estava no auge, havia chegado ao fim. Lembrava-se dos entes queridos deixados para trás, seus amigos, sua namorada Kiara, Kyle, seus pais, sua irmã.

Era inevitável chorar.

Provavelmente, ele jamais os veria novamente