Ao se aproximar da confusão, Oliver finalmente entendeu o que estava acontecendo, o mago que havia partido no dia anterior estava de pé diante da entrada do bordel, discutindo com tia Agatha. Na verdade, discutir era um eufemismo, ele a pressionava abertamente e Agatha, a dona do bordel, que normalmente enfrentava clientes bêbados sem piscar, agora recuava a cada palavra.
Ao chegar mais perto, Oliver conseguiu ouvir a conversa.
"S-senhor Archibald, deve haver algum engano, eu juro por tudo o que é sagrado que não roubaríamos nada que pertença ao senhor"
A voz de Agatha tremia enquanto gesticulava nervosamente, as mãos erguidas em súplica.
"Eu não acredito em você, ontem, quando estive aqui, tenho absoluta certeza de que estava usando meu anel, agora ele desapareceu, quero ver aquela cornídea com quem dividi a cama, tenho certeza de que aquela vadia me roubou, chame-a aqui"
Enquanto falava, uma chama pequena e instável surgiu na palma de sua mão, ondulando como se estivesse viva.
"Não me culpe se eu acabar queimando este bordel inteiro caso não consiga o que quero"
Agatha empalideceu, aquilo ultrapassava qualquer problema comum, incendiar o bordel significava destruir o sustento de todas ali, engolindo o medo, ela ordenou que chamassem Erina imediatamente.
Oliver observava tudo em silêncio, seu coração batia rápido, se suas suspeitas estivessem corretas, o anel que o mago procurava estava com ele.
Ao se aproximar ainda mais, percebeu que o mago não estava sozinho, ao seu lado havia um homem idoso, vestido como um mordomo, postura rígida e olhar afiado. Assim que notou Oliver se aproximando, o velho deu um passo à frente.
"Vá embora, garoto, isso não é lugar para criança"
Ele fez um gesto seco com a mão, indicando que Oliver se afastasse.
"Oh, e se eu disser que, na verdade, tenho assuntos a resolver aqui?"
O tom de Oliver soou estranhamente confiante para uma criança de sete anos, por fora Oliver estava pomposo, peito estufado, mas por dentro ele tremia, seu coração acelerado e as costas suadas.
A expressão do mordomo se fechou imediatamente, uma criança ousando responder daquela forma, no meio de uma situação delicada, era inaceitável, ele deu um passo à frente, claramente decidido a expulsá-lo à força.
Antes que pudesse agir, Agatha interveio.
"Por favor, senhor, deixe o menino falar, ele mora atrás do bordel, é filho de uma das meninas, talvez ele realmente saiba de algo, ao menos dê uma chance"
Ela estendeu o braço à frente de Oliver, como se tentasse protegê-lo.
"Garoto, é melhor que você saiba algo de verdade, se isso for brincadeira, a situação pode piorar muito"
Oliver assentiu calmamente.
"Não se preocupe, tia Agatha, eu acho que já entendi tudo, o anel que o senhor mago procura é este aqui"
Oliver não gostava de Agatha, ela era a dona do bordel, e de certa forma Oliver sentia que ela abusava de sua mãe, pois levava 70% do lucro que Eliandris tinha com os programas! Isso era simplesmente demais, era como se fosse um ciclo infinito da pobreza, dessa forma Eliandris sempre estaria presa a ela e nunca saíria do bordel, mas agora não era momento para nenhuma desavença interna, o problema atual precisava ser revolvido.
Ele enfiou a mão no bolso e retirou um anel prateado, coberto por inscrições estranhas que brilhavam levemente num tom azulado.
Oliver parecia confiante por fora, mas sabia o quão arriscado aquilo era, se aquele não fosse o anel correto, as coisas não terminariam bem, seu coração batia descontroladamente enquanto ele mascarava a ansiedade.
No instante em que o objeto foi revelado, o mago avançou e arrancou o anel da mão de Oliver, seus olhos percorreram cada detalhe e a chama em sua mão se apagou como se nunca tivesse existido.
"É ele"
Sem dizer mais nada, virou-se para ir embora.
"Um momento, senhor"
A voz de Oliver o fez parar.
"Eu sei que o anel é seu desde o princípio, não sei o quão importante ele é, mas se outra pessoa o tivesse encontrado, provavelmente já teria vendido, eu o guardei para devolver ao dono, o senhor não poderia retribuir isso com alguma recompensa?"
O mago virou-se lentamente, Oliver fazia mais uma jogada arriscada, não conhecia a personalidade do homem à sua frente, se fosse explosivo, certamente sofreria as consequências, ainda assim, precisava tentar, ele já havia entendido que, naquele mundo ou na Terra, era necessário ter poder para sobreviver, essa era sua oportunidade e ele não poderia desperdiçá-la.
"Recompensa? Sua recompensa é eu não incendiar este lugar, considere-se sortudo"
Ele falava com calma, sem ironia.
Oliver respirou fundo.
"Senhor, se o bordel tivesse sido incendiado, o senhor teria recuperado o anel? Para ter voltado até aqui, acredito que ele seja extremamente importante, como eu disse, se outra pessoa o tivesse encontrado, talvez o senhor jamais o recuperasse, foi justamente porque eu o guardei que o senhor o tem de volta agora"
O mago permaneceu em silêncio por alguns segundos, então suspirou, retirou um pequeno saco do cinto e o lançou na direção de Oliver.
"Pegue isso e considere o assunto encerrado, não sei se houve alguma conspiração contra mim, mas gostei de você, parece inteligente, fique com as moedas"
Oliver abriu o saco rapidamente, seus olhos se arregalaram.
Cerca de cinquenta moedas de ouro, uma fortuna absurda, aquilo poderia sustentar ele e sua mãe por mais de um ano inteiro.
Ainda assim, Oliver fez algo que ninguém esperava.
"Me desculpe, senhor, mas eu não posso aceitar isso"
O mago franziu o cenho.
"Eu não quero dinheiro, quero conhecimento, o senhor não é um mago? Me ensine magia"
Ele correu até o homem e devolveu o saco.
O silêncio que se seguiu foi quase palpável.
"O quê?"
Archibald encarou o garoto, visivelmente surpreso.
"Você tem certeza? Isso é muito dinheiro, recusar isso é algo… incomum"
"Sim, senhor, já ouvi um ditado estranho, que diz para ensinar as pessoas a pescar, e não dar o peixe para elas, se eu quiser algo na vida, tenho que caminhar com minhas próprias pernas"
O mago ficou alguns instantes em silêncio, nunca tinha ouvido aquele ditado antes, mas achou que fazia certo sentido, então deu um leve sorriso.
"Muito bem, posso aceitá-lo como meu discípulo, mas não posso ensiná-lo aqui, estou partindo, se quiser, venha comigo"
Oliver congelou.
Aquilo tinha ido longe demais.
Antes que pudesse responder, percebeu sua mãe e Erina se aproximando apressadas, ao vê-las, tomou sua decisão.
"Tio Mago, eu só tenho sete anos, não posso decidir isso sozinho, minha mãe precisa decidir por mim"
Ele correu até Eliandris, os olhos brilhando.
"Mãe, esse homem quer me levar para um lugar desconhecido e me ensinar coisas mágicas"
O silêncio foi imediato.
Erina arregalou os olhos, Agatha levou a mão à boca, o mordomo quase engasgou.
"O quê?"
Archibald franziu o cenho.
"Garoto, não fale desse jeito, as pessoas podem entender errado"
"Ué, tio Mago, o que eu falei de errado?"
Oliver disse aquilo de propósito, uma das vantagens de ser uma mente adulta no corpo de uma criança era essa, ele podia se fazer de desentendido facilmente, era um tipo de hobby que adquirira desde o renascimento.
Por alguns segundos, todos imaginaram o pior, um homem estranho, um garoto e um lugar desconhecido para fazer coisas mágicas.
A confusão só foi resolvida após uma enxurrada de explicações atropeladas, gestos desesperados de Agatha e Erina tentando acalmar Eliandris, e Oliver fingindo estar completamente confuso.
Quando tudo finalmente se esclareceu, a resposta foi clara.
Oliver não poderia deixar a cidade.
Archibald suspirou, resignado.
"Entendo"
Ele então retirou dois livros e uma pedra azul brilhante de sua bolsa e entregou ao garoto.
"Aqui, tome"
"Tio Mago, o que é isso?"
"Dois livros, um se chama Introdução à Teoria Arcana, o outro é um grimório com feitiços de primeiro ciclo, a pedra é um catalisador, se você tiver talento, ela pode ajudá-lo a despertar como mago"
"Caramba, obrigado"
"Não me agradeça ainda, como não vou te levar comigo, não posso te considerar um discípulo oficial, não sei se você vai conseguir despertar, nem quando voltarei para Corval, estou indo para a capital Eldravin, se algum dia chegar lá, procure meu nome na associação mágica, se quando nos encontrarmos novamente você não for um mago de 1º ciclo, não poderei aceitá-lo como discípulo"
"Eu não vou te decepcionar, mestre"
Oliver ajoelhou-se, sério.
"Não me chame de mestre ainda, meu nome é Archibald"
Com isso, ele se despediu e partiu.
Assim que desapareceu, Agatha foi a primeira a se aproximar.
"Moleque, você quase me matou do coração, sete anos e já causa esse tipo de problema, aposto que é a Erina que te ensina essas coisas"
"Ei, eu não ensinei nada, esse garoto já nasceu esquisito, às vezes parece que estou falando com um adulto"
Eliandris segurou Oliver pelos ombros com firmeza, seus dedos tremiam levemente e seu olhar, geralmente suave, estava carregado de medo.
"Isso foi perigoso, magos podem ser calamidades ambulantes"
Oliver fez uma careta, desviando o rosto por um instante, mas logo abriu um sorriso confiante demais para a idade.
"Mas deu tudo certo, agora, se alguém mexer com a gente, é só dizer que sou discípulo do tio Archibald"
Erina soltou uma risada curta, cruzando os braços, as asas se contraindo levemente.
"Discípulo é uma palavra forte demais, ele não te aceitou oficialmente"
Oliver deu de ombros, apertando os livros contra o peito.
"Não importa, só nós estávamos aqui hoje"
Agatha massageou a têmpora e suspirou longamente.
"Esse garoto ainda vai me colocar num caixão antes da hora"
O silêncio que se seguiu foi pesado, quebrado apenas pelo vento passando entre as construções de madeira.
Por fim, Eliandris afrouxou o aperto nos ombros do filho, seu olhar suavizou, embora a preocupação permanecesse.
"Vamos para casa, ainda temos o dia inteiro pela frente"
A verdade é que Oliver sabia o quão arriscado aquilo havia sido, no fundo, estava apostando tudo, desde que chegara àquele mundo e descobrira a existência da magia, procurou todas as formas possíveis de aprender sobre ela, mas não encontrou nada, Corval era pacata demais para isso, e mesmo que encontrasse algum material, ele realmente conseguiria pagar? Bastava olhar para os livros que recebera para perceber o valor que tinham, as capas de couro bem trabalhadas e a tinta de alta qualidade denunciavam o preço elevado, e a pedra, ele nem fazia ideia de quanto aquilo custava, talvez valesse mais do que as cinquenta moedas de ouro oferecidas antes, ainda assim, mesmo que tudo saísse diferente do que planejara, ele precisava tentar, arriscar era a única opção.
Eliandris começou a caminhar e, um a um, os outros foram se dispersando, Oliver ficou para trás por um instante, observando os livros em suas mãos, ele ainda não sabia, mas aquele dia seria o primeiro passo para trilhar um caminho do qual se arrependeria no futuro.