Capítulo 04 - Falha

No fim do dia, Oliver sentou-se na cama, acendeu uma vela e abriu o livro “Introdução à Teoria Arcana”. Ele havia passado o dia inteiro pensando nele e, assim que sua mãe saiu para trabalhar, não hesitou nem por um instante antes de finalmente abri-lo.

O livro estava escrito em universal. Oliver aprendera a ler e escrever naquele mundo há alguns anos, mérito de Eliandris, que apesar de ser apenas uma acompanhante noturna, não era analfabeta e fizera questão de ensiná-lo. Graças a isso, Oliver falava, lia e escrevia tanto em élfico quanto em universal com fluência.

Ao abrir o livro, a primeira frase capturou imediatamente sua atenção.

“Todo ser vivo neste mundo possui mana correndo em suas veias. Assim, qualquer um que compreenda os mistérios da magia pode se tornar um arcanista, desde que possua esforço e tempo suficientes.”

O coração de Oliver acelerou.

Ele continuou lendo. O livro era muito mais espesso do que imaginara e certamente não terminaria naquela noite. Ainda assim, perdeu completamente a noção do tempo, só percebeu o quanto havia se atrasado quando ouviu a porta se abrindo e passos familiares ecoando pela casa.

“Uhm? Acordado a essa hora?” disse Eliandris, com a voz levemente cansada. “Normalmente você já está dormindo.”

“Sim, mãe…” respondeu Oliver, fechando o livro às pressas enquanto se ajeitava na cama. “Fiquei lendo o livro que o tio Archibald me deu e acho que perdi a hora.”

Ela sorriu.

“Você é bem dedicado, meu filho. Estou orgulhosa de você.”

Eliandris trocou de roupa, beijou a testa de Oliver e logo se deitou, adormecendo quase imediatamente.

“Não se preocupe, mãe…” murmurou Oliver, a voz baixa, mas firme. “Eu não vou decepcionar você. Em breve, você não vai mais precisar fazer esse tipo de serviço…”

O que ele não sabia era que Eliandris ainda não dormira completamente. Ao ouvir aquilo, um leve sorriso surgiu em seus lábios antes que o cansaço finalmente a levasse ao sono.



Os dias seguintes passaram de forma tranquila, quase monótona. Oliver dedicava todo o tempo livre à leitura de “Introdução à Teoria Arcana” e chegou até a faltar a algumas sessões de Regnum contra Erina apenas para ter mais tempo com o livro.

Então, depois de vários dias, ele finalmente o terminou.

Oliver permaneceu sentado em silêncio, encarando o nada, tentando assimilar tudo o que havia aprendido. Mesmo após sete anos vivendo naquele mundo, percebeu o quão pouco realmente conhecia sobre ele. A magia, em especial, revelou-se algo vasto e profundamente complexo.

“Eu… eu tenho dois corações?” exclamou, assustado. “Todos têm dois corações?”

O livro explicava que o corpo humanoide naquele mundo não seguia exatamente as mesmas regras biológicas de sua vida passada. Devido à existência da mana, o organismo havia se adaptado.

Além do coração comum, todo humanoide possuía um coração de mana, um órgão real responsável por bombear mana através de canais chamados de meridianos arcanos, espalhados por todo o corpo.

Todo ser vivo possuía mana e caso ela se esgotasse completamente, o efeito seria semelhante à perda extrema de sangue. Se alguém fosse drenado por completo, por qualquer meio que existisse, morreria.

O caminho para se tornar um mago também estava diretamente ligado ao coração de mana. Era necessário ‘sobreaquecê-lo’, forçá-lo a bombear quantidades absurdas de mana, provocando uma evolução qualitativa. Apenas assim alguém se tornaria capaz de conjurar magias de primeiro ciclo.

Aliás, o livro não falava apenas de magos, mas de arcanistas em sentido amplo. Magos eram apenas um dos caminhos possíveis, seu foco estava na elevação da qualidade da mana, refinando-a ciclo após ciclo. No entanto, existiam outros arcanistas que seguiam rotas distintas.

Alguns concentravam-se no fortalecimento do próprio corpo, utilizando a mana para aprimorar músculos, ossos e sentidos, outros direcionavam seu poder para objetos, criando artefatos, poções, pílulas e encantamentos, esses eram consideravelmente mais raros e recebiam nomes como Alquimistas, Forjadores ou Infusores, dependendo de sua especialização.

O livro também mencionava indivíduos simplesmente abençoados, pessoas capazes de conjurar magia sem estudo, sem teoria, sem esforço consciente, para elas, usar mana era tão natural quanto respirar, esses eram chamados de feiticeiros.

Havia ainda os caminhos mais sombrios. Alguns optavam por rituais proibidos ou pactos com entidades malignas em troca de poder. Trilhas perigosas, imprevisíveis, muitas vezes com um preço alto demais.

Existiam inúmeras formas de se tornar mais poderoso, cada uma mais peculiar que a outra. O livro citava todas apenas superficialmente, como se quisesse alertar, não ensinar.

Oliver fechou a página.

Independentemente de quantos caminhos existissem, ele só via um diante de si.

Ele precisava se tornar um mago, era sua maior chance de sair desse buraco e dar uma vida digna para si mesmo e sua mãe.

Era de conhecimento comum que compreender uma magia não significava ser capaz de usá-la. Sem mana suficiente, ou de qualidade adequada, a conjuração simplesmente falharia.

Aos poucos, Oliver começou a entender a função da pedra que Archibald lhe dera. De alguma forma, ela auxiliaria no processo de circulação e estímulo da mana em seus meridianos, embora ele ainda não soubesse como.

O livro também explicava que nem todas as criaturas possuíam um coração de mana propriamente dito. Animais e seres distintos apresentavam núcleos ou órgãos equivalentes, adaptados à sua fisiologia. Ainda assim, uma regra era absoluta, toda criatura viva precisava possuir mana, sem exceções.

Apesar de tudo isso, o livro não ensinava diretamente como despertar. No entanto, apresentava uma técnica básica de visualização, recomendada para iniciantes.

Oliver não perdeu tempo.

Sentou-se no chão, cruzou as pernas e fechou os olhos. Respirou fundo, tentando acalmar a mente, visualizou seu coração de mana pulsando dentro do peito, forte, quente, vivo. Imaginou fios de energia se espalhando a partir dele, fluindo lentamente pelos meridianos arcanos, alcançando braços, pernas, cada extremidade do corpo.

Nada.

Ele franziu o cenho.

Tentou novamente, agora controlando melhor a respiração. Inspirava contando até quatro, expirava lentamente, imaginou a mana como uma névoa luminosa sendo sugada e expelida pelo coração de mana.

Ainda nada.

Oliver apertou os punhos, mudou a postura, endireitou as costas, relaxou os ombros. Tentou sentir qualquer coisa, calor, formigamento, pressão. Tentou imaginar o coração acelerando, girando, queimando. Pensou na mana como água, como fogo, como luz. Tentou puxá-la, empurrá-la, comandá-la.

Nada aconteceu.

Nenhuma reação. Nenhuma sensação.

Abriu os olhos, o peito subindo e descendo de forma irregular.

“O quê…?” murmurou, confuso. “Por que nada aconteceu?”

O olhar de Oliver se tornou sério.

“Será que eu fiz algo errado…?”

Quando percebeu, já era noite e naquele dia ele havia faltado tanto à limpeza diária dos quartos com sua mãe quanto à sessão de Regnum com Erina.

“Droga… todo esse trabalho e nada. Foi basicamente inútil e ainda consegui ficar suado.”

Ao se levantar, procurou uma toalha. Caminhou até o local onde normalmente ficava o balde, perto da porta, mas ele não estava lá.

“Droga… o que está acontecendo hoje? Quem diabos rouba um balde?”

Frustrado, Oliver acendeu uma vela para iluminar melhor o quarto e decidiu tentar novamente. Foi então que percebeu sua mãe chegando para se arrumar antes de ir ao trabalho, antes mesmo de ir trabalhar, seu semblante já estava cansado, suas mãos calejadas de trabalhar com a limpeza dos quartos.

“Minha nossa, você andou correndo por aí? Está todo suado, você nunca foi de fazer isso…” disse Eliandris, preocupada.

“Não, mãe. Eu só estava tentando uma técnica de visualização que aprendi no livro, mas deu errado. Por algum motivo acabei ficando suado.”

Algo pareceu se encaixar na mente de Eliandris. Ela caminhou até o filho, que ainda estava sentado de pernas cruzadas, e levantou a camiseta dele.

“Mãe? Eu já falei que sei tomar banho sozinho. Você não precisa me ajudar e, aliás, roubaram nosso balde!” protestou Oliver.

“O quê? Eu nem reparei. Quem diabos rouba um balde?”

“Exatamente. Foi o que eu pensei também.”

Ela suspirou.

“Mas meu filho, tirando o assunto do balde, você não conseguiu visualizar porque nunca sentiu mana de forma consciente.”

“O quê?”

“Antes do despertar, a mana só circula sozinha, seu corpo não sabe como ela ‘parece’, a mente tenta procurar algo que nunca experimentou, é como mexer um músculo que você não sabe que existe”

Oliver franziu o cenho.

“Então… antes de tentar a técnica de visualização, eu preciso sentir a mana? Mas como eu faço isso?”

“Você precisa que alguém guie mana conscientemente pelos seus canais, isso vai fazer com que você os sinta, e vai conseguir aplicar a técnica de visualização”

Ele arregalou os olhos.

“Espera… então alguém precisa mostrar primeiro?”

Eliandris assentiu.

“Um estímulo inicial. Alguém insere mana no seu corpo, ativa seus sentidos arcanos e, a partir daí, você aprende a reconhecê-la sozinho.”

“Então por que isso não estava no livro?”

Ela suspirou.

“Porque ninguém sensato tenta despertar sem um mestre, é perigoso demais. Os livros assumem que há alguém guiando o processo, certas coisas são consideradas óbvias… ou simplesmente omitidas para evitar tragédias, seria terrível se as pessoas tentassem se tornar magos por conta própria e saíssem explodindo por aí. A técnica de visualização é uma das coisas consideradas óbvias, sem sentir seus meridianos antes, você nunca vai conseguir visualizá-los”

Oliver sentiu uma pontada de frustração. Antes que pudesse protestar, uma sensação quente surgiu em suas costas e em seguida se espalhou por todo o corpo, quando sua mãe colocou as mãos lá, era como se cada parte de seu ser se sentisse energizado, isso era mana.

Ele não sabia como, mas sua mãe estava ajudando no processo. Oliver não perdeu tempo e se concentrou, aplicando a técnica de visualização ensinada no livro, o que viu o deixou chocado.

Era como se seu corpo se tornasse transparente. Ele via órgãos funcionando, batimentos, respiração, até que sua atenção foi atraída para uma massa cinzenta, do tamanho do punho de uma criança, pulsando intensamente.

Seu coração de mana.

É menor do que pensei… achei que fosse do mesmo tamanho de um coração comum.

Observando melhor, notou nove longos canais saindo dele. Eram os meridianos arcanos, diretos, largos, como grandes avenidas conduzindo mana para todo o corpo.

De repente, o fluxo cessou, a circulação desacelerou e a visão desapareceu.

Oliver abriu os olhos. Atrás dele, Eliandris estava suada, as mãos ainda apoiadas em suas costas, ela sorriu.

Oliver estava um tanto chocado, como sua mãe sabia de tantas coisas sobre magia quando ele próprio, que passou os últimos dias lendo o livro “Introdução à Teoria Arcana”, não sabia.

“Mãe, como exatamente você sabia sobre tudo isso?”

“Oliver, algumas raças são simplesmente abençoadas com magia, os elfos não são diferentes, em algum ponto de sua vida as magias simplesmente aparecem na sua mente, como se estivesse ali o tempo todo. De repente você sabe o que falar, como mexer as mãos e como manipular sua mana, da mesma forma que peixes já nascem sabendo nadar, os elfos nascem com esse potencial mágico adormecido e despertam naturalmente uma parte dele quando se tornam mais velhos.” Explicou Eliandris

“O quê? Você sabe magia? Você é uma maga?”

Ela balançou a cabeça.

“Não, eu não sou uma maga, alguns elfos se tornam, mas usar magia não nos torna automaticamente magos.”

“Então o que você é?”

“Alguém que não possui círculos ao redor do coração de mana. Sem isso, não se pode ser considerado um mago.”

Oliver entendeu imediatamente. O despertar consistia em forçar o coração de mana a criar um anel, elevando qualitativamente a mana. Eliandris não possuía esse anel, mas ainda assim sabia manipular mana.

“Aliás, posso ser considerada algo mais próximo de uma ‘feiticeira’, mas me chamar disso também seria bondade demais, herdei apenas 3 magias da linhagem, algumas delas são inatas e surgem com a idade, talvez você herde isso, talvez não, afinal, você é meio-elfo.”

A frustração voltou a crescer.

“Muito bem. já te ajudei com o que pude, agora depende de você, preciso ir trabalhar.”

Ela se arrumou rapidamente e saiu, o olhar abatido levemente animado por poder ajudar seu filho logo voltou a aparecer, antes que ela tivesse que voltar para o bordel.

Oliver permaneceu ali, pensativo. Inicialmente ele falhou, mas depois, com a ajuda de sua mãe, conseguiu usar o método de visualização.

Ele tinha dado o primeiro passo.

E agora, vinha o próximo.