Capítulo 05 - Conflito

Oliver havia conseguido usar a técnica de visualização descrita no livro com a ajuda de sua mãe. Quando Eliandris inseriu a própria mana nos meridianos arcanos dele, Oliver conseguiu acompanhar aquele fluxo dentro do próprio corpo, como se estivesse observando um rio já existente em vez de tentar imaginá-lo do nada. Isso facilitou enormemente o processo, pois sem essa ajuda ele provavelmente ainda estaria preso tentando, falhando e duvidando de si mesmo.

Agora, sempre que se concentrava, conseguia visualizar o próprio corpo como uma espécie de mundo translúcido, quase como se sua carne e ossos se tornassem vidro. Ainda assim, ele não havia despertado. A visualização era apenas a etapa anterior. A seguinte, o despertar, era descrita como extremamente perigosa. Mesmo no livro, não havia explicações detalhadas sobre como realizá-la, apenas um trecho curto, direto e cru: “você deve forçar o coração de mana a bater extremamente rápido, o processo deve ser mantido até que seja possível visualizar a formação de um anel ao redor do coração, quando isso acontecer, você terá despertado e será considerado um mago de 1º ciclo”.

Oliver desconfiava que não seria tão simples. Sua mãe também havia dito que ninguém realizava esse processo sem o auxílio de um tutor, no entanto, ela não o orientara nem demonstrara preocupação. Ela sabia que ele precisava se tornar um mago de primeiro ciclo para ser aceito como discípulo do senhor Archibald, mas mesmo assim mantinha uma tranquilidade inquietante. Aquilo incomodava Oliver mais do que palavras duras incomodariam.

“Que diabos, quem dá toda essa confiança pra uma criança? Ela realmente espera que eu desperte sozinho? Ou talvez… ela ache que é impossível? Mas tentar despertar não deveria ser perigoso?”, pensou, sentindo a testa franzir enquanto a mente se inundava de perguntas sem resposta. Naquela tarde, ele teria uma sessão de Regnum com Erina, então se ajeitou para sair, ainda irritado com um detalhe aparentemente trivial. O balde que havia sumido na noite anterior não fora encontrado. Alguém realmente havia roubado um balde velho, e isso continuava martelando em sua cabeça.

Ao entrar no bordel, Oliver não percebeu olhares estranhos nem mudanças no ambiente. Quando toda a confusão com Archibald acontecera, ainda era muito cedo, horário em que as garotas costumavam dormir. Pelo visto, ninguém além dos envolvidos percebeu o que havia ocorrido naquela manhã, pois todos o tratavam com a mesma naturalidade de sempre.

Várias das irmãs mais velhas o abordavam pelo caminho, abraçando-o sem aviso, passando a mão em seus cabelos e falando com vozes exageradamente suaves. Algumas davam conselhos completamente aleatórios, como se sentissem a necessidade de compartilhar sabedoria com ele. “Não confie demais em pessoas desconhecidas, Oliver”, dizia uma. “Se for pegar dinheiro emprestado, tenha certeza de que consegue pagar, senão fuja da cidade e desapareça”, dizia outra. “Nunca tome decisões bêbado, espere ficar sóbrio antes de agir”, completava uma terceira. Oliver ouvia tudo atentamente, assentindo e sorrindo de forma educada para manter a imagem de boa criança, embora na realidade não tivesse o menor interesse na maioria daquelas palavras.

Seguindo seu caminho, bateu na porta do quarto onde Erina costumava ficar, mas não houve resposta. Ele inclinou a cabeça, pensativo.

“Será que ela ainda está na casa dela?”

Nem todas as garotas usavam os quartos atrás do bordel. Eles eram disponibilizados gratuitamente para quem quisesse ou precisasse, mas algumas simplesmente ganhavam mais do que as outras, seja por beleza, inteligência, carisma ou curvas perigosas. Erina se encaixava em todas essas categorias, o que lhe permitia alugar uma casa própria e não precisar viver em um barraco mofado de madeira podre. Oliver suspeitava que ela fosse a dama da noite mais requisitada do bordel, quase uma acompanhante de luxo, e seu cachê certamente não era baixo.

Ele sabia onde ela morava. Corval não era grande, a cidade crescera ao redor da rota entre Duskhaven e a capital Eldravin, assumindo um formato oval, com construções concentradas ao redor da estrada principal que cortava o centro. A casa de Erina ficava a apenas duas quadras do bordel, então Oliver não precisou caminhar muito.

Ao se aproximar, percebeu algumas crianças mais velhas brincando com uma bola. Um chute saiu mais forte do que devia e a bola passou voando, caindo exatamente aos pés de Oliver. Ele a dominou instintivamente e a chutou de volta com precisão. Em sua vida passada, era brasileiro, e todo brasileiro parecia carregar esse dom estranho nos pés. Quando voltou a seguir caminho, ouviu um comentário carregado de desprezo.

“Credo, não encostem nessa bola, esse desgraçado de cabelo roxo é nojento, filho de uma prostituta, meu pai disse pra não se envolver com ele, agora a bola deve estar com algum tipo de doença.”

Oliver ficou desacreditado por um instante. O comentário fora repentino demais. A surpresa durou pouco, logo substituída por uma fúria quente que subiu pelo peito. Ele não tinha amigos da própria idade, em parte por sua mente adulta e em parte por comportamentos como aquele, comuns entre algumas crianças humanas.

Ele parou no meio do caminho e encarou o garoto que fizera o comentário. Nunca o vira antes. Em uma cidade pequena como Corval, rostos novos eram raros, o que só aumentou sua irritação.

“Ah, você ouviu? Ficou irritadinho, seu bastardo? Você sabia que é literalmente um filho da puta? Hahahahahaha.”

O garoto era maior do que a média para a idade, devia ter cerca de doze anos, quase um metro e sessenta e cinco, gordo, com cabelos loiros e olhos azuis. Oliver se aproximou, o maxilar travado. Ao redor do garoto havia outros quatro, conhecidos de vista, que se afastaram instintivamente ao perceberem o clima pesado.

“Ô SEU CHUPETA DE BALEIA DO CARALHO! EU TE CONHEÇO? QUEM VOCÊ PENSA QUE É PRA FALAR MAL DA MINHA MÃE OU DE MIM?”, Oliver avançou até ficar a poucos centímetros do outro. Apesar de ser alto para a própria idade, com cerca de um metro e trinta e um, ainda era visivelmente menor.

Os dois se encararam quando o garoto abriu a boca novamente. “E se eu quiser falar de você e da sua família? Eu menti? Sua mãe não é uma prosti…”

O soco veio antes do fim da frase. Oliver pulou e acertou o lado esquerdo do rosto do garoto com o punho direito. O impacto o pegou de surpresa. Não era a primeira vez que alguém dizia algo assim, e Oliver sempre revidava. Apesar do corpo magro, ele ainda carregava o treinamento militar da vida passada, incluindo técnicas de combate desarmado. Nunca perdera uma briga, embora lhe faltasse força bruta. Seus braços eram finos, as pernas secas, a clavícula visível sob as roupas gastas.

O garoto levou a mão à bochecha e abriu um sorriso largo e distorcido. “Ei, isso doeu um pouco, mas seu soco ainda é muito fraco…”

Ele revidou com um soco pesado. Oliver não se surpreendeu com a velocidade, mas com a força. Se fosse atingido, sairia machucado. Ainda assim, desviou, agarrou o pulso do outro e se pendurou no braço dele. O garoto se inclinou para frente, e Oliver usou o próprio peso do adversário contra ele, puxando-o para baixo até que rolasse no chão de forma patética.

“Seu desgraçado!”, o garoto se levantou furioso, uma veia saltando na testa, mas antes que pudesse avançar novamente, uma voz áspera interrompeu.

“Alto lá, seus pestinhas, nada de brigar!”

Um guarda se aproximava. Vestia cota de malha, tinha um escudo preso às costas e segurava uma lança de cerca de dois metros e meio. Era alto, com cabelos e olhos castanhos.

“Tio Baldric, foi esse poço de gordura que começou”, Oliver apontou sem hesitar.

“Eu não quero saber quem começou, vou contar para sua mãe, Oliver, e para seu pai também, jovem Jonathan.”

“Fofoqueiro…”, Oliver murmurou, revirando os olhos.

“O que você disse?”, o guarda perguntou, estreitando o olhar.

“Nada, senhor Baldric, eu nunca diria nada contra a sua pessoa”, mentiu prontamente.

Já conhecendo a personalidade do garoto, Baldric mandou todos se dispersarem. Enquanto Jonathan se afastava, lançou um último olhar carregado de ódio e escárnio. Oliver ignorou. Se ele viesse, levaria outra surra. Antes que pudesse ir embora, o guarda pousou a mão em seu ombro.

“Pequeno Oliver, eu entendo que você queira revidar quando alguém te ofende, mas dessa vez é diferente. Jonathan é filho de Balthazar Venn, um mercador famoso que está abrindo uma loja em Corval e amigo próximo do orador Silas Greymark. Mesmo que você se ofenda, nem sempre vale a pena reagir sem considerar as consequências.”

Oliver ficou momentaneamente estupefato. Aquilo explicava o rosto desconhecido. Agradeceu o aviso com uma leve reverência e seguiu para a casa de Erina, a mente já prevendo problemas futuros.

Ao bater na porta, uma cornídea de pele azul profundo atendeu. Tinha chifres curvados para trás, asas, cauda e olhos profundos como o abismo. Era Erina. Vestia roupas casuais feitas de tecido resistente e confortável, provavelmente algodão grosso misturado com linho, bem ajustadas ao corpo. Oliver nunca a tinha visto assim.

“O que foi, moleque?” Erina apoiou o ombro no batente da porta, cruzando os braços. O olhar afiado varreu Oliver de cima a baixo, avaliando-o. “Veio atrás de mim por quê? Não sabe com o que eu trabalho? Não é interessante verem uma criança na minha porta.”

Oliver piscou, ligeiramente estupefato com o tom ríspido, mas não recuou. Apertou os lábios por um instante antes de responder.

“Eu só vim ver se você estava bem. Você nunca some do bordel sem estar doente… mas, pelo visto, está saudável demais.”

Erina soltou um meio sorriso torto, carregado de ironia, desviando o olhar por um segundo.

“Ótimo saber que você se preocupa comigo nesse nível, mas estou bem.”

“Então ótimo.” Oliver deu um passo para trás, já virando o corpo. “Estou indo embora.”

“Garoto.”

A voz dela o fez parar no meio do movimento.

Ele se virou lentamente, erguendo o rosto.

“Sim, tia Erina?”

Erina suspirou, o sarcasmo dando lugar a algo mais sério. Aproximou-se um pouco, mantendo a voz baixa.

“Você precisa tomar cuidado para não chamar atenção. Sua mãe sempre manteve um perfil discreto, e isso não é por acaso.” Os olhos dela se estreitaram. “Se você se destacar demais com magia, pode acabar trazendo problemas para vocês dois.”

Oliver franziu a testa, confuso e um pouco na defensiva.

“Você fala como se tivesse certeza de que eu vou virar um mago… mas eu só aprendi a visualizar. Nem tutor eu tenho.”

Ela soltou uma breve risada nasal, sem humor algum. Inclinou-se levemente, ficando na altura dele.

“Você é absurdamente inteligente, garoto.” O olhar dela era firme, quase pesado. “Vai dar um jeito. Justamente por isso estou te avisando.”

Oliver agradeceu, combinou uma partida de Regnum no dia seguinte e voltou para casa, com pensamentos demais passando em sua mente.