Oliver sentia um ódio genuíno queimando dentro de si.
Fazia tempo desde a última vez que experimentara algo tão intenso, talvez nem mesmo em sua vida passada tivesse sentido tamanha fúria. Desde o aviso do guarda Baldric, ele já esperava consequências por ter batido no filho de um comerciante importante, aquele tipo de gente sempre tinha influência, sempre tinha amigos, sempre tinha algum jeito de transformar um incidente em exemplo.
Mas Oliver jamais imaginou que quem pagaria o preço seria sua mãe.
Aquilo era inaceitável.
A culpa o esmagava por dentro, o rosto inchado e ferido de Eliandris não era só um golpe emocional, era uma ameaça direta à sobrevivência dos dois, pelo tipo de serviço que ela fazia, ninguém pagaria para se deitar com uma mulher machucada e, sem dinheiro, os próximos dias não seriam apenas “difíceis”, seriam perigosos.
A mente dele se encheu de possibilidades: vender algo, pedir favores, trabalhar de algum jeito… só que nada disso era novo.,Oliver já pensara em todas as saídas dezenas de vezes, e todas levavam ao mesmo ponto.
Poder.
Ser um mago continuava sendo, de longe, o caminho mais rápido e seguro.
“Mãe… você, por acaso, não tem alguma reserva de dinheiro?” perguntou Oliver, encarando-a. A voz saiu mais baixa do que ele queria, como se admitir a pergunta tornasse a realidade mais concreta. “Se não tiver, os próximos dias vão ser… realmente desagradáveis.”
Eliandris suspirou, a expressão ainda marcada pela dor e pelo resto de ódio que ela tentava esconder. Mesmo assim, quando olhou para o filho, o semblante mudou, de irritação para preocupação, como se a prioridade dela voltasse ao lugar certo.
“Não… não tenho,” respondeu com honestidade. “Os próximos dias vão ser difíceis, sim, mas eu vou dar um jeito, você não precisa se preocupar.” Ela fez uma pausa curta, pesada. “E o mais importante: não faça nada idiota, lembre-se disso.”
Oliver assentiu.
Não porque concordasse.
Mas porque sabia que não adiantava discutir.
Os dois foram dormir, só que dormir era um verbo otimista, demoraram para pegar no sono, cada um preso em seus próprios pensamentos. Oliver, em especial, ficou encarando o teto escuro, calculando riscos, lembrando do sangue no rosto da mãe, relembrando o peso da própria mão no rosto de Jonathan e se perguntando, pela centésima vez, por que um mundo com magia permitia que injustiças tão banais ainda fossem tão comuns.
No dia seguinte, ele já tinha tomado uma decisão.
Tentaria despertar o quanto antes.
Mas antes disso, precisava saber quem havia feito aquilo.
À tarde, Oliver foi para mais uma sessão de Regnum com Erina, o caminho até o bordel parecia igual… até não parecer. Muitos olhares recaíam sobre ele, mais do que o normal e, quando passaram a cochichar, ele ouviu.
“Coitado… será que ele vai passar fome agora que a mãe dele não vai conseguir trabalhar?”
“É lastimável uma criança ser afetada desse jeito. Esse mundo é injusto demais.”
Oliver não reagiu, fofocas eram parte do lugar, parte da rotina, parte do ar, a fofoca do dia era ele e sua mãe, amanhã seria outra e, apesar de tudo, ele não julgava aquelas garotas. A maioria eram boas pessoas, gente quebrada tentando sobreviver. Ainda assim, ouvir aquilo fazia alguma coisa dentro dele se fechar.
Chegando ao quarto de Erina, encontrou-a esperando. O tabuleiro de Regnum já estava montado, as peças alinhadas com perfeição em ambos os lados.
Oliver abriu a porta e foi direto ao ponto.
“Tia Erina, eu quero saber quem foi o desgraçado que bateu na mamãe ontem à noite.”
Erina ergueu uma sobrancelha.
“Boa tarde pra você também, Oliver.”
“Desculpa. Mas eu preciso saber.”
Ela soltou um suspiro, estudando o garoto por alguns segundos. A ironia habitual deu lugar a um olhar mais sério, não exatamente de medo, mas de cautela.
“Eu te conheço literalmente desde que você nasceu, pirralho. É claro que eu imaginei que você viria com essa pressa.” Erina apoiou o cotovelo na mesa. “Mas eu preciso te perguntar uma coisa antes: o que você vai fazer com essa informação?”
Oliver não desviou o olhar.
“Agora? Nada.”
Erina esperou.
“Mas eu vou gravar esse nome,” ele continuou, a voz firme. “E vou retornar esse favor um dia, mão importa quanto tempo demore.”
Erina pareceu relaxar um pouco.
“Muito bem… pelo menos você não é idiota.”
Ela se inclinou um pouco, como se compartilhar aquilo exigisse proximidade.
“O nome dele é Garet, funcionário de Balthazar Venn, veio com ele da capital, Eldravin, eles estão montando um negócio de venda de itens aqui, e o Orador Silas Greymark… parece dar bastante importância para esse mercador.”
Oliver sentiu o nome se cravar na memória.
Garet.
“Tia Erina… como você sabe de tanta coisa assim?” Oliver perguntou, apesar de já ter uma ideia.
Erina deu de ombros.
“Trabalhando aqui, você aprende a ouvir. Uma das vantagens do bordel é a quantidade de boatos que você pega só de ficar perto da cozinha.” Ela fez uma careta. “Não foi difícil ouvir ontem que um homem do Balthazar espancou Eliandris porque ela teria xingado ele.”
“Mas a mãe não xingou!” Oliver rebateu na hora. “Ela é boa demais pra fazer isso.”
“Eu sei, garoto.”
Erina não falou como quem consol, falou como quem descreve um fato inevitável.
“Eles só precisavam de um motivo, e ele estava supostamente ‘bêbado’. Soa normal, plausível… dá até pra fingir que foi um acidente.”
Oliver cerrou os punhos.
“Você já sabe o motivo real, então.”
“Sei.” Erina sustentou o olhar dele. “Não foi difícil juntar as peças. E, pela sua reação… parece que você também já sabe.”
Oliver respirou fundo uma vez, duas.
“Tudo bem, agora que eu sei de quem eu tenho que cobrar isso… podemos jogar Regnum.”
Ele se sentou, a cadeira era grande demais, as pernas dele ficavam balançando no ar, sem encostar no chão.
Erina riu.
“Ótimo, porque agora eu vou chutar sua bunda, garoto. Você não faz ideia do quanto minhas habilidades evoluíram desde a semana passada.”
“Impossível,” Oliver retrucou sem pensar muito. “Você está blefando.”
A partida seguiu como sempre seguia: comentários irônicos, provocações leves, silêncio concentrado nos momentos críticos. Oliver agia como se estivesse normal. Por dentro, porém, a fúria continuava se acumulando, comprimida, pesada.
Naquela mesma noite, ele faria algo imprudente.
Quando a sessão terminou, Oliver ficou mais um pouco, ajudando a limpar e arrumar alguns quartos. A mãe dele lhe dava liberdade suficiente para ir ao mercado comprar verduras sozinho e, em Corval, Eliandris não parecia temer que algo realmente grave acontecesse com o filho, não sem motivo.
Oliver, no entanto, não voltou direto para casa.
No caminho, ele fez um desvio e seguiu em direção ao bosque, não muito longe dali, entre as árvores, encontrou uma clareira. Caminhou pouco, em menos de quinze minutos, já estava cercado por troncos e copas por todos os lados.
No bolso, carregava a pedra de mana que Archibald havia lhe dado. Em teoria, aquele catalisador deveria ajudá-lo a despertar.
E, naquela noite, ele tentaria.
Ser fraco naquele mundo era pior do que ser fraco na Terra. Lá, mesmo o poder militar era distribuído, um homem sozinho não devastaria uma cidade por conta própria. Ele poderia ordenar, coordenar, apertar um botão, mas o poder não estava exatamente no indíviduo.
Ali era diferente.
Ali, um indivíduo podia carregar, sozinho, a influência de um presidente, ou de um exército, apenas por ser forte. Um único mago poderia apagar uma cidade, talvez até um país. Oliver já ouvira histórias de arcanistas lendários, e de como a simples presença deles era suficiente para dobrar decisões, mudar rotas e empurrar os eventos do mundo inteiro na direção que desejassem.
Oliver estava cansado de não ter nada.
Sentou-se no chão, cruzou as pernas e respirou fundo. Fechou os olhos e ativou o método de visualização.
O mundo interno surgiu com nitidez: ossos, músculos, órgãos… tudo como um mapa vivo. No centro, o coração de mana pulsava, uma pequena massa cinzenta, do tamanho do punho de uma criança, batendo de forma controlada e constante.
Dele partiam nove grandes canais, como avenidas largas que atravessavam o corpo inteiro.
Os meridianos arcanos.
Oliver segurou a pedra na mão. Era cristalina, quase do tamanho de um sapato, com um brilho azulado discreto. Ele conseguia sentir que havia mana ali dentro, adormecida, estável.
Ele tentou absorvê-la.
Nada.
Tentou de novo, forçando mais concentração, imaginando o fluxo puxando a energia do cristal como se fosse água.
Nada.
O silêncio daquela resposta o irritou.
“Que pedra inútil! Então eu devo fazer do jeito bruto mesmo?” murmurou, enquanto arremessava a Pedra para um pouco longe de si.
O trecho do livro ecoou na mente, repetido tantas vezes que ele já sabia de cor:
“Para atingir o 1º ciclo, é necessário ‘sobreaquecer’ o coração de mana, fazendo-o bater de forma descontrolada… forçando um fluxo incessante de mana a ser processado… forçando uma evolução qualitativa.”
Oliver engoliu em seco.
“Basicamente… eu preciso de uma arritmia.”
Por um instante, achou graça.
Depois, a expressão endureceu.
Ele focou no coração de mana. O livro dizia que a mana respondia à imaginação e à visualização, quanto mais clara a imagem, mais obediente o fluxo.
Então Oliver imaginou a mana se movendo mais rápido pelos meridianos.
O fluxo obedeceu.
O coração acelerou para acompanhar.
O peito dele apertou com uma sensação estranha, como um fio de dor muito leve.
“Sucesso,” ele pensou, a comemoração curta e contida.
Manteve a velocidade aumentada por algum tempo, esperando qualquer sinal de mudança, qualquer “salto” qualitativo. Não veio nada. O coração batia mais rápido, sim, mas era só isso.
Impaciente, Oliver forçou mais.
Imaginou a mana correndo como uma enxurrada. Imaginou os canais cheios até o limite. Imaginou o coração batendo tão rápido que deixaria imagens residuais.
E, mais uma vez, a mana respondeu.
A dor aumentou.
Não era mais um incômodo. Era um aviso.
Oliver sentiu que poderia ter um ataque cardíaco a qualquer momento. O coração “normal” também entrou em descompasso, pulsando rápido demais, como se tentasse acompanhar o coração de mana. Ainda assim, ele não parou. A dor sabotava a concentração, quebrava a respiração e fazia a testa suar, mas Oliver persistiu.
Minutos viraram tempo.
Tempo virou uma eternidade.
Duas horas.
Já era noite, e Oliver só queria terminar aquilo o quanto antes para poder voltar para casa.
Oliver tinha certeza de que estava no limite do que conseguiria manter. E, mesmo assim, nada.
Foi então que algo mudou.
Parte da mana começou a vazar.
No início, pareceu apenas desperdício, um borrão se soltando do fluxo. Mas o borrão se fragmentou, como se a mana estivesse se solidificando em pequenos resíduos. Cada pedacinho brilhava fraco, denso, real.
Os fragmentos passaram a flutuar ao redor do coração de mana.
Como planetas orbitando uma estrela.
O estômago de Oliver se revirou, não de medo, mas de alívio, finalmente havia um sinal.
Só que o sinal veio acompanhado de uma piora brutal.
A dor no peito escalou para algo lancinante. Oliver começou a sentir falta de ar, a visão interna tremulou, e uma tontura insistente o fez querer abrir os olhos e desistir.
Ele não desistiu.
Continuou empurrando mana, mantendo a circulação violenta, forçando o coração a bater sem parar. Mais fragmentos surgiam, acumulavam, orbitavam, como se o corpo estivesse produzindo detritos de um processo que ele não compreendia completamente.
Aos poucos, os fragmentos se alinharam.
Formaram uma espécie de anel.
Era parecido com os anéis de Júpiter, vistos de longe, pareciam uma faixa contínua, de perto, eram incontáveis pedaços de matéria girando em conjunto.
Oliver pensou em desacelerar. Por um segundo, achou que tinha acabado.
Ele estava errado.
Os fragmentos começaram a vibrar.
O anel inteiro pulsou, expandiu, contraiu… e então os pedaços começaram a se fundir, sozinhos, sem que Oliver comandasse nada. Era como se, a partir daquele ponto, o processo tivesse assumido o controle.
O anel ficou mais brilhante.
Mais azul.
Mais vivo.
E o coração de mana, que Oliver jurava ser incapaz de acelerar ainda mais, acelerou.
De repente, o coração começou a bombear mana de forma enlouquecida, drenando cada gota disponível nos meridianos. Era como se quisesse alimentar o anel a qualquer custo.
Oliver tentou parar.
Tentou desacelerar o fluxo.
Tentou relaxar o coração.
Nada.
O procedimento não obedecia mais.
A dor se tornou um inferno absoluto. Oliver gritou e se retorceu no chão, mas isso só piorava a respiração. A garganta queimava, os músculos travaram, e um frio estranho subiu pela nuca enquanto o mundo inteiro parecia girar.
Ele convulsionou.
O corpo se dobrou contra si mesmo e um gosto metálico invadiu sua boca.
Oliver vomitou uma quantidade assustadora de sangue na grama.
Quando o sangue tocou o chão, ele parecia quente demais. Vapor subiu, fino, como se aquilo estivesse fervendo.