Capítulo 08 - Mago de 1º ciclo
Oliver acordou com o corpo pesado, como se estivesse afundado na terra. Quando abriu os olhos, viu um céu estrelado acima da cabeça.
Ele tinha desmaiado.
Por um instante, não soube dizer por quê. Então a lembrança voltou em ondas, o coração de mana acelerando, a dor no peito, os fragmentos em forma de anel… e, por fim, o sangue.
O que sentia agora era uma fraqueza extrema, parecida demais com a descrição de esgotamento de mana que lera em
. Cada movimento parecia drenar o pouco que restava.
“Q-quanto tempo se passou…?” murmurou.
Ainda atordoado, Oliver ergueu a cabeça e procurou a lua. Quando a encontrou, o coração apertou.
“Puta merda… olha a posição dela. A mãe deve estar desesperada.”
Tentou se levantar rápido e falhou. As pernas tremeram. A visão escureceu nas bordas. Ele acabou se apoiando nos joelhos e respirou fundo, lutando contra a vontade de apagar de novo.
Mesmo assim, começou a voltar.
O caminho até Corval não era longo, mas naquela condição parecia infinito. Oliver mal conseguiu correr, andou depressa o quanto podia, cambaleando, engolindo a náusea, sentindo a garganta seca de uma sede absurda.
Quando finalmente chegou à cidade, fez curvas por becos e ruas menos movimentadas. Queria evitar ser visto, ou, ao menos, ser visto o mínimo possível. Ainda assim, enquanto passava por algumas pessoas, algo estranho aconteceu.
Elas pareciam brilhar.
Não como luz de lamparina, nem como reflexo. Era um brilho em cores múltiplas, como se cada pessoa carregasse uma mistura própria de tonalidades, lembrando um estojo de lápis de cor aberto.
Oliver piscou várias vezes, achando que era só tontura.
Não passou.
Continuou andando, sem tempo para entender aquilo.
O trajeto inteiro tinha levado quase meia hora. Ele não sabia quanto tempo ficara desacordado, mas somando as quase duas horas forçando o coração de mana, mais o desmaio e o retorno, desconfiava que já tinham se passado quatro ou cinco horas desde que saíra do bordel, sem avisar ninguém.
Ao passar pela entrada, viu o fluxo normal de clientes. Ninguém parecia prestar atenção nele, o que ajudou. Oliver seguiu para os fundos e entrou no alojamento.
Ao abrir a porta, não encontrou ninguém.
Por um segundo, achou estranho.
No segundo seguinte, o cansaço venceu.
Com a mente lenta demais para pensar direito, ele se jogou na cama de palha e apagou.
…
Oliver não sabia quanto tempo havia dormido quando acordou com vozes e passos apressados. De repente, alguém o sacudiu com força.
“Oliver! Oliver!”
A voz vinha carregada de pânico.
“Oliver, você está vivo? Pela glória de Lúmiel!”
Ele abriu os olhos com dificuldade. A primeira coisa que viu foi Eliandris, cabelos roxos, olhos amarelos vibrantes, encarando-o de perto. O rosto dela estava inchado e manchado de roxo, e os olhos pareciam polidos de tanto chorar. Ela ainda chorava, agarrada aos braços do filho como se temesse que ele sumisse se soltasse.
E havia outra coisa.
Oliver conseguia perceber um brilho roxo vindo dela, pulsando fraco, como se a própria presença dela derramasse cor no ar.
“Mãe… eu estou bem…” Oliver tentou falar, mas a língua parecia pesada. “Eu só quero… dormir.”
Ele fechou os olhos.
E foi sacudido de novo.
Oliver abriu os olhos, agora mais desperto. Atrás de Eliandris, Erina o observava com uma seriedade rara. A Cornídea parecia carregar um brilho diferente, uma mistura de cinza com roxo, com um fio de vermelho atravessando tudo, como um ponto de raiva mal contida.
Erina foi a primeira a explodir:
“Que merda, garoto. Eu perdi meu dia de serviço inteiro te procurando. Te viram entrando na floresta, a gente procurou por lá também, mas você não estava em lugar nenhum. Aí, quando a gente decidiu pedir mais ajuda… te encontra aqui, dormindo. Você tem ideia da merda que você fez?”
Oliver entendeu.
Ele esperava preocupação.
Não naquele nível.
Na prática, ele tinha subestimado tudo, o tempo, o risco, a chance de desmaiar e ficar largado na floresta sem que ninguém soubesse, ele pensou que seria mais simples.
“Mãe… tia Erina… me desculpem,” disse ele devagar, como se precisasse escolher as palavras uma por uma. Estava mais pálido do que o normal, com a cabeça latejando e o estômago embrulhado. “As coisas saíram do controle. Mas eu estou bem… eu acho. Eu só queria dormir.”
Uma sede violenta voltou a arranhar a garganta.
“Na verdade… alguém pode me dar água?”
Eliandris pegou um copo e o encostou nos lábios dele, despejando a água lentamente.
“O que aconteceu?” perguntou ela, a voz tremendo entre raiva e alívio. “Por que você sumiu? Por que entrou na floresta?”
Oliver respirou fundo e decidiu não esconder nada.
“Eu tentei despertar. Não sabia se podia ter alguma influência externa, algum risco de alguém ver… então eu fui pra floresta.” Ele engoliu em seco. “Depois de quase duas horas acelerando meu coração de mana sem ver resultado, eu forcei ainda mais e… desmaiei.”
Eliandris assentiu lentamente, como se confirmasse uma suspeita.
“Sua mana acabou,” disse ela. “Eu não sou maga, mas sei o suficiente: o motivo de quase ninguém despertar sozinho é falta de mana. Pessoas comuns não têm mana suficiente pra sustentar o processo. Por isso existe tutor.”
Erina cruzou os braços.
“Eu acho que estava esperando demais de você, é só uma criança afinal…” disse, mais seca. “Se ficou duas horas nisso e ainda desmaiou… você desperdiçou a chance que tinha de se tornar um mago.”
Oliver franziu o cenho.
“Como assim desperdicei?”
Erina apontou para o bolso dele, como se a resposta fosse óbvia.
“A pedra de mana que o Archibald te deu. Era um catalisador. Se você ficou tentando por duas horas, deve ter drenado a mana dela inteira, ou quase inteira.”
Oliver ficou sério.
“Tia Erina… acho que houve um mal-entendido.” Ele falou com calma, apesar do cansaço. “Eu não consumi nada daquela pedra. Eu nem consegui usar. Quando vi que não servia pra nada, eu joguei longe. E, quando acordei, estava tão cansado que nem lembrei de pegar de volta. Ela ainda está na floresta.”
Eliandris e Erina se entreolharam.
Oliver sabia o valor daquilo. Mesmo sem entender exatamente o mecanismo, tinha certeza de que uma pedra com mana valia dinheiro, dinheiro que eles precisavam.
“Amanhã cedo eu volto pra pegar,” ele completou, já antecipando broncas. “Eu sei exatamente onde deixei. Duvido que suma.”
Eliandris respirou fundo.
“Você não entendeu.” Ela falou devagar, para que ele acompanhasse. “A gente ainda vai conversar sobre deixar um item caro largado no meio da floresta. Mas o principal aqui é outra coisa.”
Ela se inclinou.
“Você sustentou o processo por duas horas… com a sua própria mana?”
Oliver hesitou um instante e assentiu.
“Sim, foi isso.”
Erina soltou um assobio baixo.
“Então sua reserva de mana deve ser enorme.”
“Reserva de mana?” Oliver repetiu, confuso.
“É como uma loteria definida no nascimento,” explicou Erina. “Indica quanto de mana você consegue manter no corpo. Gente normal não aguenta duas horas de um processo desses. Mesmo falhando… isso já diz muito, pirralho.”
Oliver olhou para ela com suspeita.
“Tia Erina… como você sabe tanto sobre magia?”
Erina ergueu o queixo.
“Eu sou uma Cornídea.”
Oliver fez uma careta.
“E como isso explica alguma coisa?”
“Explica porque o mundo é assim,” Erina respondeu, impaciente. “Algumas raças despertam magia naturalmente. Elfos, anões, gnomos, homens-fera… Cornídeos também. Às vezes, o conhecimento simplesmente vem. Como se sempre tivesse estado lá.”
Oliver ficava cada vez mais ansioso. Sua mãe dizia que, por ser mestiço, ele também tinha chances de herdar a magia dos elfos. E isso o consumia que tipo de magia despertaria e, principalmente, quando?
“Tudo bem… eu entendi.” Ele respirou fundo. “Mas eu preciso verificar uma coisa. Só um momento.”
Oliver não sabia ao certo se havia realmente falhado, mas tudo nele dizia que sim. Afinal, na etapa final do processo, ele simplesmente desmaiou, era difícil acreditar que algo pudesse ter dado certo daquele jeito. Ao recorrer ao método de visualização, percebeu que o procedimento estava mais difícil do que o normal, seu corpo e sua mente ainda não tinham se recuperado da tentativa de despertar. Ainda assim, aos poucos, ele conseguiu.
E então… viu.
O coração de mana não era mais uma massa cinzenta.
Estava azul.
E havia um círculo ao redor dele, um anel marcado por inscrições finas e estranhas, símbolos que Oliver não conseguia ler nem reconhecer.

O peito dele tremeu.
“O quê…?”
Ele quase riu.
“Parece que… eu consegui. Eu despertei. Eu sou um mago de 1º ciclo!”
Eliandris e Erina perceberam a expressão dele na hora.
“Filho?” Eliandris perguntou, alarmada. “O que foi? Seu coração está bem? Foi afetado pela falha?”
“Não,” Oliver respondeu, o sorriso crescendo apesar do cansaço. “Pelo contrário. Eu despertei. Meu coração de mana mudou de cor… ficou azul. E tem um anel ao redor dele, com inscrições.”
“O quê?”
As duas falaram ao mesmo tempo.
Não parecia alegria. Parecia incredulidade.
Antes que Oliver protestasse, Eliandris e Erina colocaram as mãos nas costas dele e injetaram um pouco de mana, com cuidado. Se não houvesse rejeição, era possível perceber o estado do coração de mana de outra pessoa utilizando o método de visualização.
Alguns segundos depois, Erina arregalou os olhos.
“Eu não acredito…”
Ela encarou Oliver como se estivesse vendo outra pessoa.
“O garoto despertou por conta própria. Ele é um mago de 1º ciclo!”
Eliandris ficou em silêncio.
Por fora, parecia alívio.
Por dentro, a mente dela corria em outra direção, pensamentos escuros, antigos.
“Tomara que ele não herde nada da linhagem dos elfos da alma… senão pode ser perseguido no futuro.”
Oliver, por outro lado, estava longe desse tipo de medo. A alegria era grande demais.
E um pensamento infantil, raro e ridículo, atravessou a cabeça dele como uma flecha:
“Hahahaha! Podem me chamar de Gandalf, mundo… se preparem, eu vou lançar uma tempestade de fogo em vocês!”
Ele quase falou em voz alta.
Depois de mais conversa, e de mais broncas do que Oliver admitiria, o cansaço venceu de vez. Ele ainda não tinha se recuperado totalmente, e Eliandris também parecia no limite.
Resolveram dormir.
Naquela noite, Oliver adormeceu feliz.
Ele tinha, enfim, conseguido poder naquele mundo.
E, por enquanto, isso parecia o bastante.