Capítulo 09 - Floresta

Oliver acordou na manhã seguinte com uma dor de cabeça latejante. Olhou pela janela, um dia ensolarado, com poucas nuvens, o aguardava. A mãe não estava ao seu lado. Ele não fazia ideia de que horas eram, mas, pela posição do sol, devia estar perto do meio-dia.

Normalmente, ele nunca se levantaria tão tarde. Porém, depois do dia anterior, estava realmente exausto, não havia muito o que fazer.

Oliver se levantou e seguiu em direção à cozinha do bordel. Logo avistou a mãe preparando o almoço. Ainda doía ver o rosto dela inchado e coberto de machucados, aquilo o lembrava de que nada estava resolvido. Ele tinha despertado, sim… mas e daí? Ainda precisava ficar mais forte.

Ele não se sentia tonto, mas ainda via cores nas pessoas, como se fossem luzes de semáforos brilhando. Cada um parecia ter um tom específico, às vezes, uma mistura. Oliver já começava a achar que aquilo era alguma sequela do despertar, mas, por enquanto, preferiu não questionar, apenas observou, estranhando em silêncio.

Depois do almoço, ele avisou a mãe e se dirigiu à floresta. Havia deixado a suposta pedra de mana, inútil para ele, no meio das árvores. Quando chegou ao local exato de antes, não encontrou nada.

“O quê? Onde diabos essa pedra foi parar? Será que alguém levou daqui?” Oliver continuou procurando. Tinha certeza de que estava no mesmo lugar de ontem à noite, mas a pedra simplesmente havia sumido.

“Que droga!” gritou, frustrado.

Quando já estava prestes a ir embora, algo o fez parar. Sentado em uma árvore relativamente alta, havia um macaco de pelos marrons. Devia ter o tamanho de Oliver e possuía braços compridos e esguios. Mas não foi a presença do animal que chamou sua atenção, e sim o que ele segurava.

Na mão do macaco estava a pedra de mana que Oliver arremessara na noite passada, um cristal do tamanho de um sapato, que emanava um brilho azul suave.

“Ei, senhor macaco… você pode me devolver essa pedra?” Oliver tentou chamá-lo, mesmo sabendo que a criatura não responderia.

O macaco permaneceu em silêncio, mas Oliver havia atraído sua atenção. Ele apontou para a pedra, o macaco a olhou na própria mão e pareceu não se importar. Rapidamente perdeu o interesse em Oliver e voltou a encarar o cristal, curioso.

Oliver começou a pensar em como tiraria a pedra dali quando, de repente, o macaco começou a bater o cristal no tronco, como se tentasse analisá-lo.

“Nããão!” Oliver entrou em desespero. Não adiantaria nada recuperar apenas estilhaços. Ele apanhou algumas pedrinhas do chão e as arremessou, tentando fazer o animal parar.

Por um instante, o macaco cessou o movimento e encarou Oliver com um olhar inexpressivo. Oliver também via uma espécie de luz vindo dele, um verde-azulado… que, no momento em que as pedras foram lançadas, se transformou em um vermelho intenso, carmesim. A intuição de Oliver gritava que havia algo errado.

O macaco, então, levou a mão às costas, como se tirasse algo de um bolso traseiro, e arremessou alguma coisa na direção de Oliver. Ele mal teve tempo de reagir, o impacto acertou em cheio o peito e o derrubou no chão.

Quando se levantou, ofegante, viu uma massa marrom, quente e fedorenta grudada na roupa. O macaco havia atirado merda nele. Em seguida, disparou floresta adentro, cada vez mais fundo entre as árvores, e a risada que deixou para trás soou como puro deboche.

“Ih-ih-ih-ih-ih!” riu o macaco, como se estivesse zombando da cara de Oliver.

“Seu macaco desgraçado!” Oliver gritou, sentindo a fúria crescer por dentro. Ele disparou na direção em que o macaco corria, enquanto os risos ecoavam pela floresta.

Depois de um tempo, conforme a raiva diminuía, Oliver percebeu o quanto estava sendo impulsivo. Seguir o macaco mata adentro já havia passado do limite seguro.

A cidade de Corval crescera ao redor da rota comercial entre Eldravin e Duskhaven. Na borda da cidade, passava um rio que desaguava no mar, seguindo sua corrente por alguns quilômetros, chegava-se à costa. Perto dali, não muito distante, havia uma floresta, de onde as pessoas tiraram madeira e outros materiais para construir as casas. Na verdade, toda a região que Corval ocupava atualmente um dia fizera parte daquela mata.

Algumas regiões do mundo eram naturalmente perigosas, perigosas de verdade. Dependendo da floresta sobre a qual uma cidade fosse erguida, talvez ela nem existisse por muito tempo. Corval não era assim, e aquela floresta também não era das piores. Isso, porém, não significava que fosse inofensiva, havia animais perigosos, predadores que rondavam as áreas mais fechadas… exatamente para onde Oliver estava indo.

Mesmo ciente disso, ele continuou. Não podia se dar ao luxo de perder o macaco de vista. A segurança financeira de sua família estava ali, nas mãos do animal, ele precisava recuperar a pedra e vendê-la.

De repente, o macaco acelerou. Pulava de galho em galho com uma velocidade espetacular e logo deixou Oliver para trás, desaparecendo de sua visão.

Oliver se viu sozinho no meio da floresta. A mata era bem mais fechada do que a clareira onde estivera antes. Ele olhou para trás, incerto se conseguiria encontrar o caminho de volta.

“Mas que droga…” murmurou, frustrado. Tinha perdido o macaco, a roupa fedia a merda e, para piorar, estava perdido. Era uma situação patética.

Depois de caminhar por um tempo, decidiu tentar retornar. Porém, durante a perseguição, o macaco não seguira em linha reta, fizera curvas e mais curvas, o que só dificultava a vida de Oliver. Após andar mais um pouco, ele chegou a uma conclusão.

“Perdido… eu estou completamente perdido…” Ali, enfim, se conformou.

Como se não bastasse, Oliver percebia inúmeras formas de vida ao redor, e todas pareciam emanar cores. Ele tinha cada vez mais certeza de que aquilo era uma habilidade adquirida com o despertar, mas não fazia ideia do que aquelas tonalidades significavam.

Não muito tempo depois, enquanto andava e tentava achar um caminho para casa, Oliver ouviu um som não muito distante.

“Auuuuuuuuu…”

Eram uivos. Múltiplos uivos. Ao olhar ao redor, percebeu cerca de oito formas de vida se aproximando. Antes mesmo de se revelarem, ele já conseguia senti-las. Emanavam uma cor negra, com uma pitada de vermelho, uma combinação que fez Oliver tremer. Aquilo transmitia um perigo extremo. Ele não sabia como reagir.

Tentou correr, mas uma das formas saltou à sua frente, bloqueando o caminho. Era um lobo. Possuía pelos cinzentos e dentes amarelados, e rosnava para Oliver. A intenção era clara: estava com fome… e queria se alimentar.